Drenagem de Talentos

Há nuvens negras nos céus do Brasil. Por aqui os temas dominantes são a crise econômica e os escândalos políticos. O fantasma do desemprego cresceu tanto que agora já é um monstro assustador a devorar famílias inteiras em todas as classes sociais. Paciência, diz o Ministro da Fazenda. Os economistas arrematam: Antes de melhorar, a situação tende a se agravar.

A Indústria, o Comércio e os Serviços estão mais para “Maria Fumaça” do que para as locomotivas do desenvolvimento que costumavam ser.

mercado de trabalho, então, acabou se transformando numa versão esdrúxula e aumentada do Ver-o-Peso, o famoso mercado paraense, a maior feira ao ar livre da América Latina. Nela, ao invés dos gêneros alimentícios e das ervas medicinais, o que vemos é uma multidão que busca desesperadamente uma forma digna de continuar sustentando a si e suas famílias.

Claro, há boas notícias. A maioria delas deixa para mais adiante, talvez em 2018, a recolocação de boa parte desses trabalhadores, não só como empregados tradicionais, como também pela via das mais variadas formas que as relações trabalhistas estão assumindo.

Há alternativas? Sim, mas vai levar um tempo. Tempo que é implacável quando se trata de pagar contas básicas e comprar alimentos também básicos.

Parece um cenário sombrio, uma visão pessimista da realidade? Prefiro chamar isso de pesadelo. O pior é que enquanto não acordarmos desse sonho ruim vamos continuar testemunhando o indesejável crescimento de duas pragas igualmente nocivas. A uma delas dou o nome de Drenagem de Talentos. Sua consequência natural é o Emburrecimento Organizacional.

A máxima da redução de custos dos dias atuais é: “Onde há um Sênior, coloque-se um Estagiário”. O despreparo, a falta de experiência, a imaturidade e altas doses de desrespeito têm sido no mais das vezes a forma com que são tratados talentos de alto nível, técnicos excepcionais, profissionais gabaritados. Pessoas tratadas como lixo no momento da demissão, consideradas um estorvo na hora de fazer contatos, vistas como ET’s nas entrevistas de seleção.

Some-se a isso o fato de que, por conta desse novo contingente de “substitutos menos custosos”, coisas como Marca de EmpregadorExperiência do Candidato soam como uma impertinência. Que dizer então dos anúncios de novas oportunidades? Oportunidade de que mesmo? Geralmente, vê-se apenas o título da vaga, ou uma descrição tipo lista de lavanderia. Despropósito ainda maior é quando, mesmo bem especificado, o anúncio não passa de uma escancarada afronta, como esta muito bem respondida:

 

Alguém há de lembrar que muitos dos que estão “em busca de uma recolocação” receberam o altruístico benefício do “Outplacement”. Ótimo, mas em sua maioria continuam sem emprego e sem esperança.

Conseguir uma nova colocação decente tornou-se um evento digno de reverberação em todas as redes sociais. Parabéns chegam às dezenas, parte delas vindas de quem anseia pela mesma sorte e que costuma receber de volta: Obrigado. Tenha fé. Você também vai conseguir! Tomara que seja antes de eu ser despejado ou que para sobreviver precise depender da solidariedade alheia, pensam os menos afortunados.

E para me contrapor por antecedência a qualquer argumento que cite bons exemplos no varejo, quero reforçar que estou tratando deste assunto no atacado. Isto é, meia dúzia de cases inspiradores e dignos de nota não vão ser a solução para os 11.500.000 desempregados brasileiros. Isso é praticamente a totalidade dos habitantes da cidade de São Paulo, a maior do País e a única com mais de 10 milhões de moradores.

Eu não tenho nenhuma fórmula mágica para resolver essa inédita e angustiante escalada do desemprego no Brasil. Uma das coisas que posso fazer, faço e conclamo a fazer é tratar desse assunto de forma mais transparente, ainda que contundente. Chega de roteiros enfadonhos e repetitivos de como complementar seus “gaps”, como abordar “headhunters” ou como se comportar numa entrevista. Não que isso não seja importante, mas não é o bastante e, como se costuma dizer, “já deu pra bola”.

E que tal se nos uníssemos todos, talentos de todas as espécies e matizes, para promover um debate mais realista, verdadeiro e produtivo sobre esse drama? Grupos de trabalho, workshops, webinars e outras iniciativas poderiam contribuir na busca de soluções criativas e práticas para todas as facetas desse problema. Não vejo ninguém do governo nem dos meios acadêmicos e empresariais, tampouco vejo entidades e instituições da sociedade civil tentando fazer algo colaborativo e integrado nesse sentido. Há sim algumas ações louváveis em curso, mas são poucas, isoladas e de baixo impacto, dada a dimensão dessa tragédia nacional. E se os profissionais de RH assumissem a liderança desse movimento?

Por fim, proponho refletirmos sobre uma hipótese apocalíptica. Imagine que o fim do mundo previsto pelos grandes profetas ocorra em 2020. No ano de 2300, os cosmólogos de então vão descobrir o que outrora foi uma parte da Terra chamada Brasil. Além de gravatas de seda e uniformes de brim petrificados, eles vão encontrar evidências do que acontecia no exato momento da hecatombe. E assim, serão feitos registros que darão conta de que naquele fragmento de rocha cósmica a que fomos reduzidos habitava um povo bárbaro que tinha o estranho costume de invadir em bandos todos os locais que ostentassem uma placa com os dizeres “Temos Vagas”.

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